Resposta
A acusação
Uma das críticas mais antigas contra a fé em Deus diz o seguinte:
“Se Deus fosse bom e todo-poderoso, não existiriam mal, dor ou sofrimento. Como eles existem, Deus não pode existir.”
Esse argumento é conhecido na filosofia como o problema do mal.
Ele é poderoso principalmente no nível emocional.
Quando alguém enfrenta dor, injustiça ou tragédia, essa pergunta parece inevitável:
Se Deus existe, por que Ele permite isso?
Mas quando analisamos a questão com calma, percebemos que a existência do mal não constitui uma refutação lógica da existência de Deus.
A tese
A tradição filosófica e teológica cristã faz uma distinção importante.
Ela mostra que o problema do mal possui três dimensões diferentes:
-
o problema lógico do mal
-
o mal causado pela liberdade humana
-
o sofrimento presente em um mundo imperfeito e ainda em processo
A fé cristã não afirma que Deus ama o mal.
Ela afirma algo diferente:
Deus pode permitir certos males temporários para que bens maiores sejam possíveis.
O chamado “problema lógico do mal”
A versão clássica do argumento diz assim:
-
Deus é perfeitamente bom
-
Deus é todo-poderoso
-
o mal existe
Logo, Deus não existe.
Mas esse raciocínio só funcionaria se fosse impossível existir uma razão suficiente para Deus permitir o mal.
E esse ponto nunca foi demonstrado.
Para provar que Deus e o mal são incompatíveis, seria necessário provar algo extremamente difícil:
que nenhum bem maior poderia justificar a permissão de certos males.
Mas o ser humano não possui conhecimento suficiente da realidade inteira para afirmar isso com certeza.
Uma analogia simples
Imagine uma criança que precisa tomar uma vacina.
Para ela, a situação parece absurda:
-
dói
-
parece injusto
-
parece desnecessário
Mas o médico e os pais sabem que aquele pequeno sofrimento evita uma doença muito maior.
A criança não entende a razão.
Mas a razão existe.
Da mesma forma, a limitação do nosso entendimento não significa que não exista um propósito maior.
Dois tipos de mal
A tradição cristã também distingue tipos diferentes de mal.
Isso ajuda a entender melhor o problema.
Mal moral
O mal moral é o mal causado pelas ações humanas.
Por exemplo:
-
violência
-
corrupção
-
injustiça
-
guerras
Esses males existem porque os seres humanos possuem liberdade real.
Por que Deus permitiria liberdade?
Porque um mundo sem liberdade também seria um mundo sem amor verdadeiro.
Imagine um mundo onde ninguém pudesse escolher fazer o mal.
Nesse mundo também ninguém poderia escolher:
-
amar
-
perdoar
-
sacrificar-se por alguém
-
agir com generosidade
Seríamos como robôs programados.
A possibilidade de escolhas ruins é o preço da liberdade.
Uma analogia simples
Imagine um pai que ensina o filho a andar de bicicleta.
Ele poderia evitar todas as quedas simplesmente nunca deixando a criança pedalar.
Mas então a criança nunca aprenderia.
A liberdade envolve riscos.
Mas ela também permite crescimento.
A responsabilidade humana
Grande parte do sofrimento no mundo não vem de terremotos ou doenças.
Ele vem de decisões humanas.
Guerras, exploração, violência e injustiça são consequências do mau uso da liberdade.
Nesse sentido, o problema do mal muitas vezes é mais um problema da humanidade do que um problema de Deus.
O sofrimento natural: quando ninguém parece culpado
Nem todo sofrimento no mundo é causado diretamente por escolhas humanas.
Existem também sofrimentos que parecem fazer parte da própria estrutura da natureza.
Por exemplo:
-
doenças
-
terremotos
-
acidentes
-
envelhecimento
-
morte
Esse tipo de sofrimento é chamado na filosofia de mal natural.
Ele levanta uma pergunta difícil:
Por que um mundo criado por Deus permitiria esse tipo de dor?
Um mundo em desenvolvimento
A tradição cristã ensina que a criação ainda não está completamente realizada.
Ela está em processo.
A própria ciência mostra que o universo é dinâmico:
-
estrelas nascem e morrem
-
continentes se movem
-
espécies surgem e desaparecem
-
organismos evoluem
Esse dinamismo permite a existência de vida complexa.
Mas também envolve riscos.
Uma analogia com as leis da natureza
Para que o universo funcione de forma estável, ele precisa seguir leis naturais consistentes.
Por exemplo:
A gravidade mantém os planetas em órbita.
Mas a mesma gravidade também pode causar quedas e acidentes.
O fogo pode aquecer uma casa.
Mas também pode causar queimaduras.
A água pode sustentar a vida.
Mas também pode provocar enchentes.
As leis da natureza tornam o universo ordenado e previsível, o que permite ciência, tecnologia e vida.
Mas essas mesmas leis também podem gerar sofrimento em certas circunstâncias.
O exemplo do livro de Jó
A Bíblia já enfrentava essa pergunta muito antes da filosofia moderna.
Um dos textos mais profundos sobre o sofrimento é o livro de Book of Job.
Nele encontramos um homem justo que sofre profundamente:
-
perde seus bens
-
perde sua família
-
perde sua saúde
Os amigos de Jó tentam explicar o sofrimento de forma simplista:
“Você deve ter feito algo errado.”
Mas o livro mostra que essa explicação está errada.
O sofrimento nem sempre é punição direta.
Ele pode existir mesmo na vida de pessoas inocentes.
A resposta cristã ao sofrimento
O cristianismo responde ao problema do mal de uma maneira única entre as religiões.
Ele não afirma que Deus observa o sofrimento à distância.
Ele afirma algo muito mais radical:
Deus entrou no sofrimento humano.
Isso acontece na pessoa de Jesus Christ.
O significado da cruz
No centro da fé cristã está a cruz.
Nela, o próprio Deus assume:
-
dor
-
injustiça
-
abandono
-
morte
Isso muda completamente a forma de olhar para o sofrimento.
Deus não responde ao sofrimento apenas com uma explicação filosófica.
Ele responde participando dele.
O sofrimento redimido
O papa John Paul II aprofundou essa ideia em um documento chamado Salvifici Doloris.
Ele explicou que, em Cristo, o sofrimento pode adquirir um significado novo.
Não porque a dor deixe de ser difícil.
Mas porque ela pode ser transformada em:
-
solidariedade
-
crescimento espiritual
-
esperança
A fé não oferece respostas fáceis
É importante reconhecer algo com honestidade.
A fé cristã não oferece respostas superficiais para quem sofre.
Ela não diz que a dor é fácil ou simples.
O sofrimento continua sendo um mistério profundo.
Mas a fé afirma duas coisas importantes:
-
Deus não deseja o mal
-
Deus pode transformar o mal em bem maior
Uma analogia simples
Imagine um grande romance.
Durante a leitura, alguns capítulos parecem trágicos ou sem sentido.
Mas apenas no final da história o leitor percebe como aqueles momentos difíceis contribuíram para o desfecho da narrativa.
Se alguém lesse apenas um capítulo isolado, poderia achar a história absurda.
Talvez nossa visão do mundo seja semelhante:
vemos apenas pequenos capítulos de uma história muito maior.
Objeções comuns sobre o mal e o sofrimento
Mesmo depois de considerar a liberdade humana, o sofrimento natural e a visão cristã da cruz, algumas objeções ainda aparecem com frequência.
Vamos analisar algumas delas.
“Permitir o mal é o mesmo que causar o mal”
Essa é uma ideia muito comum, mas filosoficamente incorreta.
Existe uma diferença importante entre:
-
causar um mal
-
permitir um mal por um motivo maior
Uma analogia ajuda a entender.
Imagine um cirurgião realizando uma operação.
Ele faz um corte doloroso no paciente.
Mas o objetivo não é causar dor.
O objetivo é remover uma doença e salvar a vida da pessoa.
Nesse caso, o sofrimento é permitido para alcançar um bem maior.
Da mesma forma, permitir um mal temporário não significa desejar o mal como fim.
“Se eu não entendo a razão, então não existe razão”
Outra objeção comum é esta:
“Se eu não consigo ver um motivo para o sofrimento, então ele não pode ter motivo.”
Mas isso não é um argumento lógico válido.
Nossa capacidade de compreender a realidade é limitada.
Por exemplo:
Uma criança pequena muitas vezes não entende por que precisa ir ao médico ou tomar remédios amargos.
Para ela, aquilo parece injusto.
Mas a falta de compreensão da criança não significa que não exista um motivo real.
Da mesma forma, a limitação do nosso conhecimento não prova que o universo não possua um sentido maior.
“O sofrimento inocente destrói a fé”
Essa é talvez a objeção mais forte no nível emocional.
Ver o sofrimento de pessoas inocentes — especialmente crianças — é algo profundamente difícil.
A fé cristã não ignora essa dificuldade.
Pelo contrário.
Ela coloca no centro da sua mensagem o sofrimento de um inocente:
Jesus Christ.
Na cruz, Cristo sofre injustamente.
Ele é condenado sem culpa.
Isso mostra que o sofrimento inocente não é incompatível com a ação de Deus na história.
O coração da resposta cristã
O cristianismo não responde ao problema do sofrimento apenas com filosofia.
Ele responde com um acontecimento histórico e espiritual:
a cruz e a ressurreição.
Deus não permanece distante do sofrimento humano.
Ele entra nele.
Ele assume a dor.
E promete que o sofrimento não terá a palavra final.
A esperança da redenção
Na visão cristã, o sofrimento não é o fim da história.
Ele é parte de um drama maior que aponta para redenção.
A fé cristã afirma que o mundo ainda está em caminho.
E que a história da criação encontra seu sentido pleno na esperança da ressurreição.
O que realmente o problema do mal mostra
O problema do mal não prova que Deus não existe.
Na verdade, ele revela algo curioso.
Quando as pessoas dizem que algo é injusto, elas estão apelando para uma ideia de justiça.
Mas de onde vem essa ideia de justiça objetiva?
Se o universo fosse apenas matéria sem propósito, conceitos como:
-
bem
-
mal
-
justiça
-
injustiça
seriam apenas opiniões humanas.
O fato de sentirmos que certas coisas realmente são erradas sugere que existe um padrão moral mais profundo.
Conclusão
O mal e o sofrimento são desafios reais para a fé.
Eles levantam perguntas profundas e difíceis.
Mas eles não constituem uma refutação lógica da existência de Deus.
A resposta cristã combina vários elementos:
-
a liberdade humana
-
a complexidade de um mundo natural em desenvolvimento
-
a limitação do conhecimento humano
-
e, acima de tudo, a cruz de Cristo
No cristianismo, Deus não responde ao sofrimento apenas com explicações.
Ele responde entrando no sofrimento para transformá-lo.
Fontes
Fontes principais
-
Catholic Answers — How to Answer the Problem of Evil
-
Catholic Answers — If God Exists, Why Do I Suffer?
-
Catholic Answers — A Pope’s Answer to the Problem of Pain
Fontes magisteriais e teológicas
-
John Paul II — Salvifici Doloris
-
Catechism of the Catholic Church §§309–314
-
The Problem of Pain